[capítulo anterior]

28 de janeiro



Dos bairros acima do solo, o Quarto Centenário é o mais antigo e menos ostensivo, onde o time de arquitetos e engenheiros envolvidos se esmeraram em tentar reproduzir no céu o melhor dos bairros paulistanos na terra - com leves perfumes visuais do que a cidade que fora nas gerações anteriores - sem exageros ou imitações desvairadas de outras metrópoles. É um ambiente bonito, equilibrado, que traz paz aos olhos, uma inspiradora nostalgia e a vontade de viver o presente.

Outro adendo é que o bairro não foi inaugurado no ano do aniversário de quatrocentos anos da cidade de São Paulo. Ele foi levantado e posto no ar décadas depois, num ritmo bastante rápido, até. O nome veio para justamente remeter ao passado e a uma suposta tradição.


Ndtll foi uma esportista de origem tymyze nascida no Brasil, e que foi bastante popular até poucas década atrás, carismática ao ponto de ser chamada de "Natália" pelos fãs (um nome bem mais pronunciável) e de ter alegremente adotado esse nome, até em autógrafos, nos eventos públicos e até na vida cotidiana. Os mais velhos ainda se lembram dela carregando a bandeira brasileira nas olimpíadas e outros eventos esportivos, de seus principais feitos nas competições em que participavam, e também o que faziam quando souberam que ela morreu, vítima de um trágico acidente de carro nos primeiros anos da Tutela.

Ela deixou duas filhas, que não deram prosseguimento à tradição esportiva. A mais velha, Hndt, morava aqui na rua José de Anchieta, junto da filha criança, batizada de Ndtll em homenagem à avó. Lars e Lia conheceram as duas em um evento ano passado e a impressão que tiveram delas não foi das melhores, mas vê-las para fazer negócios é o que tinham para hoje:

- Eli são lindas! - diz a tymyze ao pegar o estojo com o conjunto de cinco moedas de prata, emitidas pelo Banco Central do Brasil, com a efígie da própria mãe, cunhadas quando esta estava viva. Junto, vinha um cartão de autenticidade, numerado (5/1000), autografado pela própria atleta, em seu nome "brasileiro". Os olhos de enormes íris violeta de Hndt brilhavam de felicidade - tive o estojo número um, mas acabamos perdendo entre o falecimento de mamã e a construção do memorial dela...

Sem aviso, uma revoada de pequenas luzes vagamente humanoides cruza a sala, com pressa e evitando trombar com as pessoas maiores, sentadas em torno de uma mesa baixa de vidro. Ninguém estranha, é um fato comum, mas esperam todas irem embora antes de voltarem a conversar:

- Nós soubemos - Lia responde - é mui triste isso, quase uma pequena tragédia =/, por isso, assim que conseguimos esta peça, nos lembramos imediatamente de tu e do memorial...

Lá em baixo, na avenida Paulista, um dos casarões fora convertido em um pequeno museu, mantido pelos Consulados. Mas aqui em cima, nessa sala de pé direito alto, havia filial particular que não passaria vergonha frente à matriz, quase um templo à ancestral: troféus, medalhas, recortes de jornais e revistas. Uma pintura quase abstrata - mas que as pinceladas retratavam perfeitamente o balé dos movimentos da atleta - fotos em duas, três dimensões, com e sem cor ao lado de gente famosa e ao lado de suas filhas, então crianças. E, acima dos três, dos objetos e do assunto em pauta, a criança tymyze se exercitava, ou melhor, se exibia acrobaticamente nas barras e argolas instalados nas paredes do cômodo com alto pé direito.

- Mas o que voi querem em troca do estojo... - Hndt abaixa a voz - é bem diferente e... - e agora levanta a voz: Ndtll!, vá para teu quarto, aqui é conversa de adultos.

Ouve-se um "tá" decepcionado ao mesmo tempo em que a pessoinha mais nova da casa pula para se segurar com mãos e pés nos nichos típicos que existem nas paredes de residências tymyzes e de lá segue subindo rapidamente para se enfiar numa porta aberta junto ao teto.

- Ela é boa, não? - Lia admira. Essa sequência só vi em competições. E ela está em roupas de festa, julgo que isso aumenta a dificuldade do exercício...

- Sim, elo é, - retifica a identificação de gênero adotado pela cria nos últimos meses - puxou mui a minha mamã, mais que eu, e está se esforçando para manter o legado :) Voltando ao assunto... o que voi querem pele moede é um tanto... exótico.

- Mas... soubemos que não é exatamente incomum lá... fora - Lars responde - e é acessível à tu... não é?

- É... é sim - e ela retira de dentro de um vaso, que está sobre a mesa de centro, um objeto em cor preta, triangular, pouco mais espesso que um dedo - mas por que precisam de um mecanismo que silencie um ambiente e ainda mostre se alguém se aproxima? Voi estão armando algo contra alguém?

- Não, não - a mãe de Klara responde sincera e fica sem jeito em seguida - é que, bom... somos um casal, nosso casamento vai bem, possuímos um quarto grande, uma cama grande e... às vezes acontecem... barulhi, não é? E temos uma filha curiosa no andar de cima que sabe ser bastante silenciosa, e cada vez mais bastante rápida para descer escadas para ver o que está acontecendo, entende?

- Não.

Lia faz a melhor cara de "coisa de terrestre, pense um tico a mais" para a humana brasileira filha de brasileira famosa, mas cuja espécie humana foi forjada em outra estrela, com outra biologia e forma de reprodução.

- Ah!... julgo que entendi. Imagino que... é, julgo que é justificável o pedido de voi.


E, negócio fechado.



[continua...]





www.mushi-san.comfale comigo✉

Gostou do meu trabalho?